-
-
Súplica
Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.
Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria...
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada. -
Sem Remédio
Aqueles que me tĂȘm muito amor
NĂŁo sabem o que sinto e o que sou...
NĂŁo sabem que passou, um dia, a Dor
Ă minha porta e, nesse dia, entrou.
E Ă© desde entĂŁo que eu sinto este pavor,
Este frio que anda em mim, e que gelou
O que de bom me deu Nosso Senhor!
Se eu nem sei por onde ando e onde vou!!
Sinto os passos de Dor, essa cadĂȘncia
Que Ă© jĂĄ tortura infinda, que Ă© demĂȘncia!
Que Ă© jĂĄ vontade doida de gritar!
E é sempre a mesma mågoa, o mesmo tédio,
A mesma angĂșstia funda, sem remĂ©dio,
Andando atrĂĄs de mim, sem me largar! -
Livre de quê?
-
Amamos o desejo, não o desejado
-
Nomeei-te no meio dos meus sonhos
-
Não Ser
Ah! arrancar Ă s carnes laceradas
Seu mĂsero segredo de consciĂȘncia!
Ah! poder ser apenas florescĂȘncia
De astros em puras noites deslumbradas!
Ser nostĂĄlgico choupo ao entardecer,
De ramos graves, plĂĄcidos, absortos
Na mĂĄgica tarefa de viver!
...
Quem nos deu asas para andar de rastos?
Quem nos deu olhos para ver os astros
- Sem nos dar braços para os alcançar?!... -
Ele quis morrer para arrasar a morte e voltar
-
Semper
-
Tríptico
Não sei como dizer-te que minha voz te procura
e a atenção começa a florir, quando sucede a noite
esplêndida e vasta.
Não sei o que dizer, quando longamente teus pulsos
se enchem de um brilho precioso
e estremeces como um pensamento chegado. Quando,
iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado
pelo pressentir de um tempo distante,
e na terra crescida os homens entoam a vindima
— eu não sei como dizer-te que cem ideias,
dentro de mim, te procuram.
Quando as folhas da melancolia arrefecem com astros
ao lado do espaço
e o coração é uma semente inventada
em seu escuro fundo e em seu turbilhão de um dia,
tu arrebatas os caminhos da minha solidão
como se toda a casa ardesse pousada na noite.
— E então não sei o que dizer
junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.
Quando as crianças acordam nas luas espantadas
que às vezes se despenham no meio do tempo
— não sei como dizer-te que a pureza,
dentro de mim, te procura.
Durante a primavera inteira aprendo
os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto
correr do espaço —
e penso que vou dizer algo cheio de razão,
mas quando a sombra cai da curva sôfrega
dos meus lábios, sinto que me faltam
um girassol, uma pedra, uma ave — qualquer
coisa extraordinária.
Porque não sei como dizer-te sem milagres
que dentro de mim é o sol, o fruto,
a criança, a água, o deus, o leite, a mãe,
o amor,
que te procuram.






