Etiqueta: #António Ramos Rosa
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Sílabas
SĂlabas.
O ĂĄlcool de Dezembro Ă© frio e rouco.
O cigarro amarga. Ă um cigarro clĂnico.
SĂlabas.
Com sĂlabas se fazem versos.
O tampo da mesa Ă© liso.
Uma colher Ă© uma forma complexa
familiar e deliciosa.
Um copo Ă© nĂtido
como um criado sem servilismo.
Uma mulher condensa-se
no olhar do poeta.
Um corpo. Duas sĂlabas.
O dinheiro Ă justa. A gola da gabardina
para tapar a nuca
e os ouvidos.
SĂlabas. -
Teu Corpo Principia
Dou-te um nome de ĂĄgua
para que cresças no silĂȘncio.
Invento a alegria
da terra que habito
porque nela moro.
Invento do meu nada
esta pergunta.
(Nesta hora, aqui.)
Descubro esse contrĂĄrio
que em si mesmo se abre:
ou alegria ou morte.
SilĂȘncio e sol â verdade,
respiração apenas.
Amor, eu sei que vives
num breve paĂs.
Os olhos imagino
e o beijo na cintura,
Ăł tĂŁo delgada.
Se Ă© milagre existires,
teus pés nas minhas palmas.
Ă maravilha, existo
no mundo dos teus olhos.
Ă vida perfumada
cantando devagar.
Enleio-me na clara
dança do teu andar.
Por uma ĂĄgua tĂŁo pura
vale a pena viver.
Um teu joelho diz-me
a indizĂvel paz. -
Em Qualquer Parte Um Homem
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Não posso adiar o amor
Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob as montanhas cinzentas
e montanhas cinzentasNão posso adiar este braço
que é uma arma de dois gumes amor e ódio
Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação
Não posso adiar o coração.


